Dante Alighieri

 

 

 

A Divina Comédia, de Dante, foi sem dúvida um dos maiores receptáculos das ideias de Joaquim de Flora (Gioachino di Fiori), a ponto de ter sido considerada por alguns como apocalipse joaquimita (gioachimita). A figura misteriosa do Veltro (…) que destruirá na tormenta a besta selvagem e que se alimentará de sabedoria, de amor e de virtude tem sido interpretada das mais diversas formas. (… ) O leão e a loba (…) são os obstáculos que o Veltro abaterá e afastará para o triunfo final do Espírito Santo”. António Quadros

 

 

Nascido em Florença, Dante passou 36 anos de sua vida na cidade natal, e depois mais 20 anos no exílio. Com suas obras: “Vida Nova”, “Monarquia” e “Divina Comédia”, ocasionou o próprio nascimento da Língua Italiana e contribuiu para o renascimento europeu. 

Em seu mais famoso livro, Divina Comédia, coloca a inveja, a arrogância e os desmandos do poder como os piores erros do ser humano — exatamente como a ciência trilógica de Norberto Keppe veio a confirmar tantos anos mais tarde. 

Em sua obra Monarquia atuou como Montesquieu faria séculos depois, ou seja, pregando a divisão do poder para diminuir sua carga patológica. Assim como na França o autor de O Espírito das Leis recomendou que o poder monárquico fosse dividido em três – Legislativo, Executivo e Judiciário – (para retirar das mãos dos monarcas o poderio exagerado), o poeta de Florença defendeu que o poder absoluto do clero, nomeador de reis e imperadores, fosse dividido em dois: ao papa, caberia o poder espiritual, enquanto que ao monarca o poder temporal. 

Segundo alguns historiadores, Dante seria um templário, com alta posição na Ordem. Aí reside a razão pela qual o poeta, na Divina Comédia, tomou como seu guia para a viagem celeste São Bernardo, que estabeleceu o estatuto da Ordem do Templo. Ao escolher o monge cisterciense como seu guia nos últimos círculos do Paraíso, Dante teve em mente não só a pureza, o ascetismo e idealismo imaculado de Bernardo, mas também, como sugere Guénon e é óbvio, o seu papel decisivo na ação templária. 

Dante, porém, nunca se declarou como templário com medo de mais perseguições do que já sofria, uma vez que o grão-mestre da Ordem do Templo Jacques de Mollay tinha sido queimado por ordem de Filipe, o Belo, rei da França. Este pressionou o papa Clemente V para que fosse aberto um processo inquisitorial contra os templários. Em sua obra, Dante menciona a punição que adviria aos que atacaram a Ordem do Templo, na passagem da Divina Comédia em que “Beatriz anuncia a Dante a próxima chegada de um libertador que virá à terra para punir os crimes da Corte Pontifícia e da Casa de França”. (92) 

Afirmam os dantólogos (estudiosos de Dante) que este somava em si quase todo o conhecimento da Europa de seu tempo, não só o oficial, mas o esotérico cristão, indicando até os lugares mais afastados da sua terra com dados sempre lapidares e precisos. Em seu poema, refere-se à visão de uma constelação com quatro estrelas (no canto Purgatório I, 22-24). Segundo Edmundo Cardillo, essas quatro estrelas referem-se à constelação do Cruzeiro do Sul que, do hemisfério Norte não é observável, motivo por que Dante a dá como sendo do conhecimento da “gente primitiva”, ou raça primordial, cronologicamente antiga. Neste particular é bem possível que o poeta tenha se referido aos índios tupis, segundo alguns historiadores. (93) 

Escrevendo ao senhor de Verona (Epístola XIII, VII-20-22) Dante afirmou que a Comédia deveria ser entendida de mais de um modo, pois dera-lhe quatro sentidos superpostos: o literal, ou histórico; o moral; o figurado ou alegórico; e o anagógico ou místico. 

Hernani Donato afirma que “a insistência (de Dante) em harmonizar o poema com os números 3, 10 e seus múltiplos indica, como pretendem alguns historiadores, sua devoção à Santíssima Trindade”.(94) 

Dante anunciou um misterioso libertador para a Humanidade (o Veltro), que combateria a ordem corrupta e a corrupção humana, preparando o gênero humano para o Reino do Espírito Santo. Sobre esta personagem, que destruirá a besta na tormenta, escreveu o poeta: “Esse não quererá terras ou metais preciosos, mas sabedoria, amor e virtude; e a sua nação será entre Feltro e Feltro». (95) 

Feltro significava, na época, tecido usado por gente do povo, podendo-se entender que a nação do Veltro será entre povo e povo, isto é, um trabalho de libertação dos povos em geral. Para alguns intérpretes, significa também que o próprio Veltro seria um homem do seio do povo e não das altas esferas de poder. 

Para Dante, a justiça, a paz, veementes aspirações de sua alma, serão a base definitiva da ordem social da humanidade: “A paz universal, eis aqui a perfeição, o fim último para o qual o gênero humano se dirige, cumprindo sua lei”. 

Dante escreveu contra a injustiça, a tirania e a corrupção nas altas esferas e colocou o amor como o fundamento de tudo, sendo perseguido durante vinte anos de sua vida. Em seu último verso, da Divina Comédia, o poeta escreve: “o Amor é que faz mover o sol e as estrelas”. 

 

(Texto do livro HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL – Vº IMPÉRIO : O MILÊNIO UNIVERSAL de Cláudia Bernhardt de Souza Pacheco)