Gioacchino Da Fiore 

 

 

 

Virá um tempo como jamais houve outro desde que os homens começaram a existir sobre a Terra. Será um tempo de felicidade, de alegria e de repouso. (…)” 

“As preocupações e as dificuldades cessarão.(…) O povo do terceiro estado, comparável a Salomão, o filho de David, viverá cheio do Espírito, sábio, pacífico, digno de amor, dado à contemplação, e ser-lhe-á concedido o domínio da terra inteira. (…) Deixará de haver dores e gemidos. Pelo contrário, reinarão o repouso, a serenidade,a abundância da paz. Dançaremos de alegria ao contemplarmos os admiráveis desígnios de Deus.” (70) - (Da Fiore). 

 

 

Gioachino Da Fiore foi o pensador que mais influenciou a Europa de ponta a ponta (incluindo a Rússia) no século XII e seguintes, trazendo com suas ideias um renascimento do verdadeiro espírito cristão e a reação contra os poderes eclesiásticos corruptos e censuradores da Idade Média. Foi como um sopro de liberdade de consciência, de espiritualidade, que impulsionou o retorno aos valores éticos no seio do cristianismo. 

Sua influência na espiritualidade de Portugal foi especialmente forte e duradoura, penetrando nos hábitos e na fé dos portugueses durante o reinado de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel (pais do Projeto Áureo dos Descobrimentos) – e perpetuando-se pelas gerações futuras, mesmo no além-mar. Até hoje no Brasil comemoram-se as Festas do Divino Espírito Santo, criadas por D. Dinis e Santa Isabel em 1296, com suas características autenticamente gioachimitas (o menino coroado, a libertação dos presos, a abundância de alimentos, a igualdade das classes, a adoração ao Espírito Santo e a natureza laica das festas). Pode-se dizer que as festividades do Divino Espírito Santo são as únicas que não comemoram fatos passados, mas celebram o futuro da humanidade, que elas mesmas anunciam. 

Profeta da Nova Idade 

Segundo o abade Da Fiore, logo que sejam ultrapassadas as provações virá, durante a última idade do mundo, “o tempo do Espírito, a hora da compreensão espiritual e da visão manifesta de Deus”. Para ele, o que anteriormente só foi revelado a alguns, será revelado à multidão. (71) 

Gioachino Da Fiore nasceu por volta de 1135 em Celico, na diocese de Cosenza, na Calábria. Filho de notário, começou a exercer a profissão paterna na corte de Palermo. Posteriormente, por razões que desconhecemos, deixou suas atividades e visitou os lugares santos. Ao voltar, tornou-se monge cisterciense e abade do mosteiro de Corazzo. Em pouco tempo cortou com a Ordem de Císter, por julgá-la insuficientemente fiel ao ideal monástico, e construiu o convento de São João de Flora nas montanhas da Sila. Quando morreu, em 1202, uma meia dúzia de mosteiros tinham-se agregado à ordem de Flora. 

Delumeau assinala em Mil Anos de Felicidade (op. cit) que apesar de não ter sido canonizado, Gioachino gozou no seu tempo de uma reputação de santidade, devido à sua piedade, austeridade de costumes e caridade para com o próximo; encontra-se inscrito no catálogo dos bem-aventurados e no tomo 6 da Bibliotheca Sanctorum, publicado em 1965; e, se alguns quiseram ver em sua obra um caráter anticlerical, eivado até mesmo de traços heréticos, a maior parte dos estudiosos afirma que essa piedosa personagem nunca teve a intenção de ser revolucionária, mas sim de viver o cristianismo puro; e os seus contemporâneos não tiveram a impressão de que formulasse doutrinas subversivas. 

 

 

Desenho de Gioachino Da Fiore simbolizando as três idades numa progressão harmoniosa, como numa árvore com ramos entrelaçados. 

As suas principais obras são a Concordia Novi et Veteris Testamenti (Concordância do Novo e do Velho Testamento), a Expositio in Apocalypsim (Comentário sobre o Apocalipse), o Psalterium Decem Chordarum (Saltério a Dez Cordas) e o Tractatus super Quatuor Evangelia (Tratado sobre os Quatro Evangelhos). Seu trabalho De unitate et Essentia Trinitatis (Da Unidade e Essência da Trindade), dirigido contra o teólogo Pedro Lombardo e condenado no Concílio de Latrão (1215), não foi encontrado. Nesta obra, Fiori critica Lombardo na medida em que este teria elaborado uma teoria mais próxima a uma “Quatertatis” e não “Trinitatis”, pois Lombardo via a Santíssima Trindade como um 4º elemento, resultado da união dos três primeiros (Pai, Filho e Espírito). 

(Texto do livro HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL – Vº IMPÉRIO : O MILÊNIO UNIVERSAL de Cláudia Bernhardt de Souza Pacheco)