O Projeto Áureo

“É com o rei D. Dinis, monarca verdadeiramente inspirado e iluminado, que já podemos falar de Pátria portuguesa.(…) Pátria é a relação viva, profunda, e substancial de um povo, não só com uma tradição contínua, transmitida de pais para filhos, mas também com um projeto teleológico (de finalidade) original. “  Antônio Quadros 

 

Dinis 

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro consigo ;
é o rumor dos pinhais que, como um trigo
do Império , ondulam sem se poder ver 

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
busca o oceano por achar ;
e a fala dos pinhais, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra, ansiando pelo mar. 

Fernando Pessoa (Mensagem) 

 

O Projeto Áureo (assim como toda a cultura europeia cristã medieval) recebeu sua maior influência da Doutrina das Três Idades, enunciada pelo abade cisterciense Gioachino di Fiori (1131-1202) que renovou a crença, o pensamento, as artes e a ciência de sua época e dos tempos futuros, retirando o ser humano do medievalismo e inaugurando o Renascimento Europeu. Como aponta Quadros, a própria Divina Comédia, de Dante, livro renascentista por excelência, «foi sem dúvida um dos maiores receptáculos das ideias de Gioachino di Fiori, a ponto de ter sido por alguns considerada como apocalipse gioachimita». (103)  

Quando D. Dinis subiu ao trono, 77 anos após a morte de Gioachino di Fiori, as ideias do abade italiano tinham corrido a Europa e estavam muito vivas entre os templários, os cistercienses e os franciscanos a quem o monarca e a rainha eram muito ligados. 

Os autores do Projeto Áureo: 

O rei D. Diniz e a Rainha Isabel, apesar da diferença de idade e de terem sido educados em países diferentes, planejaram e executaram em sintonia o chamado Projeto Áureo, o que mostra que tinham uma afinidade mental e espiritual. 

A Rainha Santa, canonizada pelo Vaticano trezentos anos após sua morte, nasceu em Saragoza, Espanha, então reino de Aragão, no dia 11 de fevereiro de 1270, sendo seu pai o príncipe herdeiro D. Pedro e sua mãe d. Constança, filha do rei de Nápoles e da Sicília. Seu nome foi escolhido em recordação de sua tia Santa Isabel da Hungria, “cujas virtudes deviam servir-lhe de modelo e a cujo celeste patrocínio a piedade materna queria confiá-la”. (104) 

  1. Dinis, nove anos mais velho, nasceu em Portugal no dia 9 de outubro de 1261 (dia de S. Dinis – ou Dionísio, em Português) e foi cognominado “O Lavrador” por ter feito tanto a reforma agrária em Portugal, fomentando a agricultura, quanto o plantio de florestas e pinhais do Reino, como os de Leiria, para futura construção das embarcações dos Descobrimentos. Por este motivo, foi chamado também de “Plantador de Naus”, emMensagem, de Fernando Pessoa.

Por parte de pai (rei D. Afonso III) ele era descendente direto de Afonso Henriques, fundador de Portugal, que, conforme a historiografia, teria recebido diretamente de Cristo as profecias acerca da missão portuguesa de construir o Seu Reino na Terra. (105) 

Os antecessores de D. Dinis eram muito ligados aos franciscanos espiritualistas, à Ordem de Císter e aos templários, que, como já o dissemos, eram defensores e propagadores da doutrina das Três Idades de Gioachino di Fiori. Isabel, a Rainha de Portugal, também recebeu ensinamentos baseados nos ideais gioachimitas, que lhe foram transmitidos por, entre outros, Arnaldo Villanova, médico das cortes de Aragão, França, Nápoles e Sicília, bem como de muitos papas da época. 

Não se pode esquecer a amizade da princesa de Aragão com os franciscanos, que a levou a criar o mosteiro de Santa Clara em Coimbra, objeto de sua predileção, pedindo em testamento que ali fosse depositada a sua sepultura e onde efetivamente se encontra o seu corpo até os dias de hoje. O corpo do rei D. Dinis, por sua vez, encontra-se, a seu pedido, num mosteiro da Ordem de Císter, em Odivelas, cidade da Grande Lisboa. 

Os 5 Pilares do Projeto Áureo: 

De acordo com António Quadros, o Projeto Áureo, criado 7 séculos atrás, em 1296, caracterizou-se por ser um «projeto concreto e novo, de surpreendente inventiva, de genial visão teleológica (106) e mesmo escatológica, (107) de extraordinária coragem ética e intelectual, que irá qualificar pelo menos dois séculos de nacionalidade, repercutindo-se nos tempos posteriores e jamais deixando de estar presente, se não no consciente, pelo menos no inconsciente coletivo nacional». (108) 

Baseou-se o Projeto Áureo em cinco alicerces: 

1) instauração, de forma original e mesmo única, sem paralelo nos restantes países cristãos, do Culto Popular ou Festa da Coroação do Imperador do Espírito Santo, com um tipo de liturgia então desvinculada da Igreja, um culto da história do futuro, uma saudação antecipada da Terceira Idade que traria a plenitude divina (ver item Festas do Divino) ; 

2) Oficialização da Língua Portuguesa, tornando-a obrigatória em todos os documentos públicos e imperativa na Literatura (o próprio D. Dinis era excelente poeta, tendo deixado grande acervo de Cantigas de Amigo e Cantigas de Amor); 

3) criação, em 1288-1290, do Estudo Geral ou Universidade Portuguesa, no bairro de Alfama em Lisboa, primeira universidade laica e uma das mais antigas da Europa, aberta a todos os que quisessem inscrever-se, onde se ensinava Teologia, Filosofia e Ética, Gramática, Lógica, Direito Civil, Direito Canônico e Medicina, com magistério ampliado ao mundo civil ou laico (anteriormente o ensino era restrito aos conventos); 

4) Proteção à Ordem dos Templários, afeiçoando-a a um projeto nacional-universal pela sua transformação em Ordem de Cristo, em cujo seio emerge, é teorizada, pensada e realizada a empresa dos descobrimentos; 

5) Plantação de pinhais para as futuras naus dos descobrimentos e formação incipiente de uma Armada com a chamada do Almirante Pessanha. 

(Texto do livro HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL – Vº IMPÉRIO : O MILÊNIO UNIVERSAL de Cláudia Bernhardt de Souza Pacheco)