São Francisco

 

 

 

“Com a entrada dos franciscanos em Portugal logo no início do próprio movimento (…) é possível definir já o sentido tolerante, religioso e fraterno da espiritualidade portuguesa”, diz-nos o historiador português António Quadros. (83) 

Tanto ele como o historiador francês Jean Delumeau, assinalam o caráter milenarista dos franciscanos, principalmente os da Ordem Terceira, que admitia os leigos em sua organização. Delumeau afirma que “os dois franciscanos mais conhecidos da “conquista espiritual” do México no século 16, Motolonia e Mendieta, tiveram em comum a convicção de que iam poder reconstituir a idade de ouro da Igreja primitiva no outro lado do Atlântico. (…) Mendieta sonhou levar os indígenas a viver (…) como num paraíso terrestre”. (84) 

Os primeiros religiosos a chegar oficialmente ao Brasil nas naus dos descobridores foram oito frades franciscanos, chefiados por Frei Henrique Soares, de Coimbra. Desde então, a ordem fundada por S. Francisco em Assis, na Itália Central, em 1210, nunca mais parou de influenciar a formação da cultura brasileira, do mesmo modo que já havia causado enorme impacto no cristianismo europeu. 

Essa influência adveio principalmente da Ordem Terceira, formada por pessoas leigas que buscavam viver em suas casas e em seus afazeres os ideais franciscanos. Exemplo é a própria Rainha Santa Isabel, de Portugal, que era freira clarissa da Ordem Terceira, praticando os ideais franciscanos na vida pública, sem deixar suas funções monárquicas. Ela terminou sua existência, após a morte do marido, Rei D. Dinis, vestida constantemente com o hábito de clarissa. Outro franciscano da Ordem Terceira seria o navegador Cristóvão Colombo. 

A Ordem de São Francisco surgiu com um espírito totalmente novo, tentando reviver o cristianismo puro, das origens. Seu fundador, Giovanni Bernardone (São Francisco) nasceu em Assis, Itália Central, calcula-se que em 1181 ou 1182e morreu perto da mesma cidade, em 1226, com a idade de 45 anos. 

Em vez de ficarem reclusos nas igrejas ou mosteiros, Francisco e seus frades, seguindo as pegadas dos apóstolos, decidiram sair pregando pelo mundo a penitência e o evangelho, de acordo com a regra que Cristo transmitira aos discípulos: ide e pregai; curai os doentes, limpai os leprosos, não leveis ouro, nem prata, nem cobre nos vossos cintos, nem alforje, nem duas túnicas; em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, procurai alguém que seja digno e permanecei em sua casa até partirdes. (Mt 10, 6-15; Mc 6, 7-13; Lc 10, 3-12). Os frades peregrinavam dois a dois, reunindo-se somente uma ou duas vezes por ano, em um local combinado. 

O movimento teve repercussões em toda a Europa e imediatas em Portugal (posteriormente no Brasil, Açores, África e outros domínios portugueses), como muito bem explica o historiador lusitano António Quadros: “Com a entrada dos franciscanos em Portugal logo no início do próprio movimento (…) é possível definir já o sentido tolerante, religioso e fraterno da espiritualidade portuguesa. À rudeza dos costumes da época, contrapõe-se um idealismo que tende a corrigi-la (…) princípios de grande exigência ética, ao lado dos valores heroicos antigos (…) de fidelidade, coerência, e de um patriotismo de tendência universalista ou católica (…) sendo português o mais culto e inteligente dos discípulos de S.Francisco, Santo Antonio de Lisboa, primeiro doutor da Ordem. (…) o espírito de tolerância, predominando sobre a intransigência contra o infiel, (…) propiciou um convívio inter-racial e inter-religioso.” (85) 

Encontramos aí, possivelmente, uma das raízes do espírito tão bonito de confraternização e tolerância, pacífico e não belicoso, predominante no povo brasileiro e em outros, colonizados pelos portugueses. 

Interligação europeia 

Ao mesmo tempo, o movimento franciscano cresceu rapidamente, atraindo para suas fileiras alemães, franceses, italianos, espanhóis, portugueses, nobres, ricos, teólogos, sacerdotes, gente do povo, artistas – pois, devido a serem incansáveis andarilhos e admitirem os leigos na sua Ordem Terceira, os frades ligavam entre si as classes, os níveis hierárquicos e as regiões. 

Os biógrafos de São Francisco dizem que não somente os homens se convertiam à Ordem, mas também muitas mulheres, ainda solteiras ou viúvas, as quais, seguindo seu conselho, enclausuravam-se nos mosteiros espalhados pelas cidades e aldeias para fazer penitência, surgindo a Ordem das Pobres Damas, que mais tarde se chamariam clarissas (seguidoras de Santa Clara). Da mesma forma, homens e mulheres casados, não podendo abandonar a lei do matrimônio, entregavam-se, por conselho dos irmãos, a uma penitência mais rigorosa, sem sair de suas casas e atividades, tornando-se membros da atuante Ordem Terceira Franciscana. 

O santo de Assis e seus frades, escreve Quadros, tudo uniam “com seu exemplo de despojamento, ideal de fraternidade, de pobreza e de fé, do seu cristianismo vivencial e ardente, remontando ao comunitarismo dos Actos dos Apóstolos. A meio caminho entre os ascetismo e a cavalaria há (…) uma dupla ascendência, beneditina e templária. (…) Quando as cruzadas esmorecem, eles surgem como novos Cruzados, os Cruzados do interior, os Cruzados do povo e para o povo.” (86) 

Viria daí um dos pilares da maravilhosa unidade racial, territorial, linguística e cultural que se observa no território e no povo brasileiro, apesar de suas dimensões continentais? 

Espírito de Pobreza 

Ao lado dos grandes valores espirituais que os frades traziam, diz o historiador lusitano que eles também uniam tudo com seu exemplo de pobreza. Não adviria daí, em grande parte, isto é, de uma interpretação errônea do significado da vida apostólica e evangélica do santo, a ideia do chamado espírito de pobreza, ou desprezo aos bens materiais e ao corpo, que se nota com clareza em nossa cultura e também na lusitana? É claro que se percebem aqui também os laivos da filosofia platônica, cristianizada por Aurélio Agostinho, e que dominou a Europa medieval por oito séculos, até mais ou menos a época em que São Francisco viveu. Como se sabe, tanto Platão como o doutor da Igreja enxergavam o corpo e a matéria como algo desprezível, como se nos fosse inadequado. Seja como for, parece que devido a esse desprezo, os brasileiros entregam de graça as suas riquezas, animais, florestas, minérios, petróleo e até suas empresas e trabalho aos poderes gananciosos, que encontram grande facilidade para se apossar do país. O que é uma pena, pois toda a riqueza cultural, espiritual e moral da tradição luso-brasileira é destruída nesse processo. Igualmente, portugueses e espanhóis perderam para os ingleses e alguns outros povos muitas das terras que descobriram ou colonizaram. 

O Poder Revolucionário de Francisco 

Embora pouco se mencione a respeito, o ideal de pobreza vivido e pregado por S. Francisco tinha mais a finalidade de se contrapor à corrupção desenfreada que se verificava no clero e na nobreza da época. Ele próprio era filho de família muito abastada e abandonou tudo pela vida virtuosa. As riquezas, associadas à injustiça, impiedade e decadência moral, passaram a ser símbolos do Anticristo. 

O exemplo vivo do jovem de Assis arrastou atrás de si uma verdadeira legião de moças e rapazes ricos e da nobreza, que dava as costas à estrutura de poder social da época, abraçando a vida de ideal cristão. A pobreza dos franciscanos tinha mais uma finalidade de denúncia à corrupção, e o fenômeno Francisco de Assis abalou toda a Europa. 

(Texto do livro HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL – Vº IMPÉRIO : O MILÊNIO UNIVERSAL de Cláudia Bernhardt de Souza Pacheco)